Resenha de A Cidade e as Estrelas

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Certa vez, ao ler sobre Pangaea Ultima, o supercontinente que existirá daqui a 250 milhões de anos, sobre espécies do futuro e sobre o planeta Terra com anéis, surgiu-me uma ideia para um romance. Nele, a humanidade viveria numa mega-cidade isolada do ambiente, o que permitiria ao homem se manter alheio às mudanças climáticas e à seleção natural. Compartilhei a ideia com um amigo escritor e nos propusemos a levar o projeto adiante. Então, como que por acaso, deparei-me com a sinopse de A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, e desisti, temendo plagiá-lo sem querer.

A Cidade e as Estrelas

Hoje, após a leitura desse impressionante romance de ficção científica, vejo que muito provavelmente minha melhor decisão foi abandonar a ideia. Não apenas pelo roteiro em si – que eu nem imitaria no todo, pois Clarke trata de Alvin, que renasce sem memórias e por isso tem uma ânsia de deixar a cidade, enquanto eu acompanharia um androide policial que persegue delinquentes que deixam sua capital rumo ao deserto -, mas pela profundidade das ideias e projeções futuristas do autor, que dificilmente podem ser igualadas – quiçá superadas.

Diaspar, a cidade de Clarke, é de cair o queixo – principalmente se levarmos em conta que o livro foi publicado em 1956. O livro já começa com Alvin e seus amigos jogando “Sagas”, que não são nada mais que uma previsão de videogames em perfeita realidade virtual, como um dia teremos. Tudo na cidade funciona ao comando de pensamentos, os quartos são vazios; basta que alguma pessoa deseje, e a mobília surja, materializada pelas máquinas que controlam a matéria. Uma cama, um divã, uma tela em qualquer parede, etc.

Segundo sua história oficial, Diaspar existe há um bilhão de anos, desde que a humanidade foi forçada pelos Invasores a abdicar de seu império galáctico e se recolheu em seu planeta original. O trato foi que jamais deixariam sua última cidade, e os Invasores não os destruiriam. Assim, Diaspar funciona como um ciclo fechado, uma máquina perfeita. Tem bilhões de habitantes, mas apenas 10 milhões vivem de cada vez. Cada pessoa vive mil anos, portanto, 10 mil nascem e morrem a cada ano. A morte, contudo, não é o fim: as memórias ficam guardadas pelo Computador Central, e uma equação determina quando a pessoa retornará. Computador Central, aliás, que é um show à parte: diferente de tudo o que era imaginado pela ficção científica nos anos 50, 60, ou mesmo 70 e 80, ele funciona como uma máquina realmente futurista, com internet. Ele não está em alguma parte em específico da cidade; cada pequeno robô é uma parte de seus olhos, ouvidos, tato e mente.

A Cidade e as Estrelas

De acordo com a história de Diaspar, não existe mais vida humana fora da cidade. Alvin, contudo, nasce sem memórias, como se jamais tivesse pisado no mundo antes. E ele tem uma sede pelo desconhecido. É desprovido do medo inato de seus conterrâneos de deixar a cidade. Ele logo descobre que houve outros 14 como ele no último bilhão de anos, mas nada se sabe sobre seus feitos e destino. E, com uma disposição e insistência sem limites, Alvin fará de tudo para deixar Diaspar e conhecer o mundo lá fora.

É um livro que é simplesmente devorado, dada a ânsia em conhecer o que virá em seguida, e o cliffhanger no fim de cada capítulo. E Clarke não abusa de nossa curiosidade: ao fim do primeiro terço de obra, esse dilema de deixar ou não deixar Diaspar se resolve, e as questões envolvidas na obra e o universo apresentado pelo autor vão crescendo a proporções geométricas. Ao fim, o que se vê é realmente todo o futuro da humanidade, das ciências, da vida no cosmo, sendo vislumbrados, projetados, debatidos.

E minha estória na Terra futura com anéis? Bem, após ler A Cidade e as Estrelas, não vejo nenhuma necessidade dela vir ao mundo. Clarke já a escreveu antes de mim.

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Comments

  1. Giuliano  fevereiro 21, 2013

    Poxa que coisa mais triste você desistir da sua história porque alguém fez algo semelhante! Nenhum autor é dono de ideia alguma, muito menos é um herói épico que fez feitos insuperáveis por outros humanos hahahaha

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    • Eric Musashi  março 4, 2013

      Ah, eu simplesmente perdi o tesão em escrever ao perceber que faria um plágio involuntariamente. Não pretendo ser o novo As Aventuras de Pi, rs.

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  2. Macaco branco  outubro 1, 2013

    Escreve uma sobre seres que vivem em outra dimensão que são como estrelas e tão tecnologicamente avançados que nenhum livro de ficção cientifica jamais ousou escrever…

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